O cricket atravessa uma fase inédita.
Antes visto como esporte restrito a países do Commonwealth, agora busca protagonismo em mercados estratégicos — e os Estados Unidos são peça central nessa transformação. Cricket em ascensão rumo às Olimpíadas 2028.
A volta do cricket ao programa olímpico em Los Angeles 2028 reforçou essa mudança de rota. Além do valor esportivo, há um efeito direto no interesse de patrocinadores, veículos de mídia e plataformas de streaming, que enxergam no evento uma oportunidade rara de conectar suas marcas a um público global em expansão.
O crescimento global do cricket
Mesmo sendo o segundo esporte mais popular do mundo, com mais de 2,5 bilhões de fãs, o cricket ainda tinha dificuldade de se consolidar fora de suas praças tradicionais. Agora, esse cenário começa a mudar, impulsionado por novos mercados e pela digitalização do esporte.
Nos Estados Unidos, o crescimento é notável. Comunidades indianas, caribenhas e paquistanesas, que somam cerca de 5 milhões de pessoas, sustentam uma base sólida de 400 ligas locais e 200 mil jogadores ativos, segundo a USA Cricket. Plataformas como ESPN+ e Willow TV têm atraído um público jovem, com 12,8% dos americanos mostrando interesse no cricket, conforme a Nielsen. Eventos como o T20 World Cup de 2024, co-sediado pelos EUA, registraram picos de 35 milhões de espectadores online em jogos como Índia x Paquistão.
Empresas de tecnologia como Apple e Amazon Prime Video estudam ampliar transmissões e experiências digitais, enquanto marcas globais de consumo — como Nike, Coca-Cola e PepsiCo — já investem em ações ligadas ao cricket globalmente. Essas empresas reconhecem o potencial de um público multicultural, conectado e em ascensão, especialmente com a promessa de visibilidade olímpica. Vemos o Cricket em ascensão rumo às Olimpíadas 2028
Major League Cricket (MLC): espetáculo e investimento
A Major League Cricket (MLC), inaugurada em 2023, trouxe dinamismo ao formato T20 e transformou a percepção do esporte em solo americano. O título conquistado pelo MI New York em 2025 consolidou a competição como vitrine internacional, com 90% dos ingressos vendidos e US$ 8 milhões em receita na temporada inicial.
Investidores ligados à Indian Premier League (IPL), como Mukesh Ambani (MI New York) e Shah Rukh Khan (Los Angeles Knight Riders), além de magnatas como Satya Nadella (Microsoft) e Ross Perot Jr., injetaram US$ 120 milhões na liga até 2022. A presença de jogadores como Trent Boult e Kagiso Rabada eleva o nível técnico e atrai mídia global.
A MLC se destaca por:
- Infraestrutura moderna: estádios como Grand Prairie Stadium (Texas), Central Broward Park (Flórida) e Oakland Coliseum (Califórnia), com planos para arenas permanentes.
- Audiência em alta: transmissões em Willow TV, YES Network e NBC Sports, com picos de 229 milhões de espectadores em jogos da IPL, servem de referência.
- Crescimento comercial: patrocínios de marcas como Cognizant, Accenture e Verizon, com acordos entre US$ 100 mil e US$ 1 milhão.
- Setores emergentes: mercado de apostas (Bet365, DraftKings, FanDuel), turismo (Booking, Expedia) e streaming (Netflix, YouTube, Amazon Prime Video) exploram oportunidades.
Com isso, a MLC deixou de ser apenas uma aposta esportiva: tornou-se parte de um ecossistema de negócios que dialoga com o consumidor moderno, com planos de expansão para 10 equipes até 2027.
Governança e reformas da USA Cricket
Para sustentar essa expansão, a governança precisa acompanhar. Em setembro de 2025, a USA Cricket realiza eleições internas que devem redefinir os rumos da entidade, após uma crise com a American Cricket Enterprises (ACE), parceira da MLC. A federação rescindiu um contrato de 50 anos, alegando falhas financeiras e de infraestrutura, enquanto a ACE contesta a decisão.
O Conselho Internacional de Cricket (ICC) colocou a USA Cricket “em observação” em 2024, exigindo reformas até dezembro de 2025, incluindo eleições transparentes e conformidade com o Ted Stevens Act. Estabilidade institucional é fundamental para atrair patrocinadores de longo prazo — como JPMorgan, Google e Meta — que só investem em projetos com gestão sólida e alinhamento às regras do Comitê Olímpico Internacional (IOC).
A boa gestão será crucial para preparar seleções competitivas, como a que venceu o Paquistão no T20 World Cup de 2024, e garantir a vaga olímpica dos EUA, que pode ser transferida caso as reformas falhem.
O caminho para Los Angeles 2028
A volta do cricket às Olimpíadas, após 128 anos, é vista como ponto de virada. Para Los Angeles 2028, a modalidade será disputada no formato T20, com seis equipes masculinas e seis femininas, cada uma com 15 jogadores, em um estádio temporário no Fairplex, Pomona. As partidas, agendadas a partir das 9h para atender ao público asiático, prometem atrair milhões, com potencial de US$ 100 milhões adicionais em direitos de TV na Índia. Mais uma vez vemos Cricket em ascensão rumo às Olimpíadas 2028.
Setores que devem se beneficiar diretamente incluem:
- Marcas esportivas: Adidas e Puma planejam coleções temáticas de uniformes e equipamentos.
- Plataformas de streaming: Peacock, ESPN+ e Amazon Prime Video disputam direitos de transmissão, enquanto YouTube e TikTok amplificam clipes virais.
- Indústria de bebidas e alimentos: Coca-Cola, PepsiCo e Nestlé tradicionalmente se conectam a grandes eventos.
- Mercado financeiro: bancos digitais como Revolut e fintechs associam suas marcas a novos públicos.
Esse movimento deve impulsionar o mercado de apostas, que pode crescer para US$ 36,24 bilhões globalmente até 2033, e abrir espaço para experiências de segunda tela, lives interativas e ativações em redes sociais, criando um ecossistema de anúncios em múltiplos formatos.
O futuro de um esporte em ascensão
O que antes parecia apenas entusiasmo de nicho agora se configura como um projeto global. Nos Estados Unidos, o cricket deixou de ser prática restrita a comunidades específicas e passou a ser tratado como produto de entretenimento de alto valor. O T20 World Cup de 2024, com 34 mil espectadores em Nova York, mostrou o potencial do mercado.
Se a curva de crescimento se mantiver, 2028 poderá consolidar o esporte não só como fenômeno olímpico, mas também como ativo estratégico para setores como tecnologia, streaming, turismo e consumo. Mais do que vitórias em campo, o que está em jogo é a capacidade do cricket de se tornar vitrine mundial para marcas que buscam conexão com um público diverso e em rápido crescimento. E os Jogos Olímpicos prometem ser o palco ideal para esse salto.
